O cortiço como personagem vivo, a zoomorfização humana e o determinismo biológico — Aluísio Azevedo e Raul Pompeia sob a lente da ciência.
✦ Contexto Histórico
O Naturalismo é uma extensão radicalizada do Realismo, influenciada especialmente pela obra de Émile Zola (Thérèse Raquin, 1867). Enquanto o Realismo criticava os costumes burgueses, o Naturalismo vai mais fundo: as personagens são determinadas por fatores biológicos, hereditários e ambientais — o ser humano como animal sujeito às mesmas leis da natureza.
No Brasil, o contexto é o Rio de Janeiro das décadas de 1880-1890: fim da escravidão (1888), Proclamação da República (1889), crescimento urbano desordenado, surgimento dos cortiços. O maior deles, o Cabeça de Porco, abrigava entre 400 e 4.000 pessoas em condições subumanas — e foi demolido em 1893, dando origem à primeira favela do Brasil (Morro da Providência → Morro da Favela).
O primeiro romance naturalista brasileiro é O mulato (1881), de Aluísio Azevedo. A obra mais importante do movimento é O cortiço (1890).
✦ Conceitos-chave
🔬DeterminismoRaça, meio e momento histórico determinam o comportamento humano (teoria de Taine). O indivíduo não tem livre-arbítrio — é produto do ambiente.
🐾ZoomorfizaçãoPersonagens humanas descritas com características animais — instintos, impulsos, animalidade. O inverso também ocorre: coisas se antropomorfizam.
🏚️Microcosmo SocialO cortiço/colégio como espaço que condensa e reflete toda a sociedade — um pequeno universo com suas próprias leis e hierarquias.
🌿AntropomorfismoO cortiço "nasce", "cresce", "respira", "minhoca" — é tratado como ser vivo. Inversão da zoomorfização humana: a coisa assume vida.
⚡Darwinismo SocialHerbert Spencer aplicou a seleção natural de Darwin à sociedade: "sobrevivência do mais apto" justifica desigualdades sociais.
🎨Impressionismo (O Ateneu)Raul Pompeia usa cores, sensações e subjetividade — classificado simultaneamente como naturalista, realista e impressionista.
⚡ Os dois microcosmos — O Cortiço e O Ateneu
O Cortiço (1890) — Aluísio Azevedo
🏠
Espaço: cortiço carioca ("Estalagem de São Romão")
👤
João Romão: imigrante português que constrói fortuna roubando materiais, explorando Bertoleza e os moradores
👩🏿
Bertoleza: negra escravizada cujo dinheiro financia João Romão; descartada quando ele sobe socialmente
🏡
Miranda: dono do sobrado vizinho; competidor/espelho de João Romão na ascensão burguesa
🌱
O cortiço como personagem: "minhocar, esfervilhar, crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração"
O Ateneu (1888) — Raul Pompeia
🏫
Espaço: colégio interno de elite no Rio de Janeiro (baseado no Colégio Abílio)
👦
Sérgio: narrador-personagem adulto que rememora a infância; "Sérgio adulto vigia Sérgio criança"
👑
Aristarco: diretor-autocrata; mais empresário que pedagogo; "Acima de Aristarco – Deus! Abaixo de Deus – Aristarco"
❤️
Ema: esposa de Aristarco; anagrama de "mãe" e do imperativo "ame"; figura materna e erótica para os alunos
🔥
Incêndio final: Américo ateia fogo ao Ateneu — destruição da instituição corrupta e da monarquia decadente
A metamorfose de João Romão — Darwinismo Social em ação
🪣
Vendeiro
trabalho bruto, furtos noturnos
🧱
Construtor
3 casinhas → 95 casinhas
💰
Especulador
Bolsa, cafés caros, paletó
🎩
Capitalista
Cortiço "aristocratizava-se"
✦ Diferenças: Realismo vs. Naturalismo
O Realismo analisa a sociedade burguesa com ênfase na psicologia e na crítica social. O Naturalismo vai além: aplica as ciências naturais à literatura, com ênfase na determinação biológica e ambiental. As personagens naturalistas são menos indivíduos e mais tipos — determinados pela raça, hereditariedade e meio social.
O Naturalismo também amplia o repertório de temas: cortiços, prostituição, doenças, instintos sexuais, alcoolismo — assuntos que o Realismo abordava com discrição, o Naturalismo descreve com crueza científica. Daí a linguagem sensorial intensa: cheiros, texturas, calor, sons abafados.
✦ O Ateneu — Múltiplas Classificações
O Ateneu é uma obra que desafia a classificação. Segundo a crítica, pode ser lido como:
📚Romance de FormaçãoSérgio amadurece ao confrontar a realidade do colégio — passagem da estufa doméstica ao "mundo cruel".
🔬Romance NaturalistaDarwinismo escolar: só sobrevivem os mais fortes; aspectos sórdidos da sexualidade; ambiente determinando comportamento.
🎨Romance ImpressionistaSimbologia das cores, subjetividade sensorial — "Há estados d'alma que correspondem à cor azul, ou às notas graves da música".
🧠Romance PsicológicoSérgio adulto vigia Sérgio criança — narrativa memorialista que mergulha na psicologia do narrador-personagem.
⚠ O que mais cai no ENEM e Vestibular
Cortiço como personagem: o anthropomorfismo — "minhocar, esfervilhar, crescer" — é uma das passagens mais cobradas
Zoomorfização: descrever humanos com características animais (instintos, impulsos) — característica central do Naturalismo
João Romão: representa o capitalismo primitivo e o darwinismo social; sua ascensão = o cortiço evoluindo junto com ele
Bertoleza: negra explorada e descartada — crítica ao racismo e ao capitalismo pós-abolição
Aristarco — o Ateneu como monarquia: leitura política — colégio autocrata = Império decadente; incêndio = Proclamação da República
Ema: anagrama de "mãe" e "ame" — questões sobre o nome e seu simbolismo são frequentes
O Ateneu = múltiplas classificações: romance de formação + naturalista + impressionista — saber diferenciar e justificar
Diferença Realismo x Naturalismo: Eça/"Queirós disse" sobre o Realismo — "anatomia do caráter"; Naturalismo = determinismo biológico
✦ Questões de Vestibular ✦
Questão 01FCMSCSP
Preencha as lacunas com os movimentos literários corretos:
"O __________ era a apoteose do sentimento; o __________ é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou falsos, para condenar o que houve de mau na nossa sociedade." — Eça de Queirós, Conferência no Cassino Lisbonense
A resposta é A. A frase é da conferência de Eça de Queirós no Cassino Lisbonense (1871), em que ele define o Realismo em oposição ao Romantismo. O Romantismo era "a apoteose do sentimento" — exaltação das emoções, subjetivismo, idealização. O Realismo é "a anatomia do caráter" — análise racional, crítica social, objetividade. Essa frase é um dos marcos fundadores do Realismo em Portugal e é muito cobrada em vestibulares.
Questão 02UERJ
A ordem de desocupação e demolição do cortiço Cabeça de Porco (1893), pelo prefeito Barata Ribeiro, representou uma política de intervenção urbana. Um dos problemas sociais que motivou a demolição e o objetivo dessa medida estão indicados, respectivamente, em:
A resposta é D. O Rio de Janeiro do final do século XIX enfrentava explosão demográfica: ex-escravizados, imigrantes, trabalhadores portuários — todos sem onde morar. Os cortiços surgiram como solução habitacional precária. A demolição do Cabeça de Porco foi justificada pelo discurso higienista (modernização, saneamento), mas seu objetivo real era erradicar as habitações populares para "embelezar" o centro urbano segundo o modelo europeu. As famílias despejadas foram para o Morro da Providência — origem da primeira favela brasileira.
Questão 03ESPM-SP
Sobre a zoomorfização na literatura, considere:
I. A zoomorfização se opôs frontalmente às idealizações românticas, sendo uma característica exclusiva do Naturalismo.
II. Segundo Antônio Candido, não é possível haver distinção entre ser humano e animal, no sentido de que um cede característica ao outro.
III. A definição de Candido sobre zoomorfismo é construída por meio de um processo chamado quiasmo.
É correto afirmar que:
A resposta é C. A proposição I é falsa: a zoomorfização não é exclusiva do Naturalismo — ela aparece em diversas épocas, inclusive no Romantismo. A proposição II é falsa: Candido afirma exatamente o contrário — é POSSÍVEL haver a troca de características entre humano e animal (por isso define o zoomorfismo). A proposição III é verdadeira: a definição de Candido — "o que é próprio do homem se estende ao animal e permite que o que é próprio do animal se estenda ao homem" — usa o quiasmo (inversão de elementos paralelos: A→B / B→A).
Questão 04FUVEST
"O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se… Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra."
O cortiço, Aluísio Azevedo
Uma característica do Naturalismo presente no texto é:
A resposta é A. O trecho é uma demonstração clássica da linguagem sensorial do Naturalismo: sons ("rumor", "zunzum"), sensações físicas ("fermentação sanguínea", "gula viçosa", "lama preta e nutriente"), além da zoomorfização implícita ("prazer animal de existir"). O Naturalismo provoca o leitor a sentir os cheiros, o calor, o barulho — uma experiência sensorial intensa, oposta à idealização romântica. O espaço não é idealizado (B errada), não há exaltação passiva da natureza (C errada), não é o foco em raças (D errada) nem em indivíduos (E errada).
Questão 05UFU — Dissertativa
Leia os dois trechos de O cortiço sobre Bertoleza e Rita Baiana, e discorra sobre as concepções naturalistas que justificam o comportamento amoroso dessas personagens.
Trecho 1 (Bertoleza): "Ele propôs-lhe morarem juntos, e ela concordou de braços abertos, feliz em meter-se de novo com um português, porque, como toda a cafuza, Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua."
Trecho 2 (Rita Baiana): "…o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior."
✦ Gabarito comentado
Os comportamentos de Bertoleza e Rita Baiana são "justificados" pelo narrador naturalista com base em duas teorias do século XIX: (1) o determinismo racial — a ideia de que a raça determina instintos e comportamentos; as personagens mestiças seriam "instintivamente" atraídas por homens de "raça superior" (europeus brancos); (2) o darwinismo social de Herbert Spencer — a luta pela sobrevivência: aliar-se a um indivíduo de "raça superior" seria uma estratégia de sobrevivência instintiva.
O narrador se "adéqua" ao discurso científico ao usar termos como "instintivamente", "afinidade de temperamento" e "sangue da mestiça" — linguagem de tratado biológico. No entanto, deixa-se guiar pela ficção ao construir uma narrativa moralista e preconceituosa, apresentando as escolhas amorosas das mulheres não-brancas como determinadas biologicamente — o que é ficção racista disfarçada de ciência. Essa tensão entre discurso científico e preconceito ficcional é uma das contradições mais criticadas do Naturalismo brasileiro.
Questão 06ENEM
No trecho do romance naturalista A normalista (1893), de Adolfo Caminha, o personagem pensa que "o pobre é mais honesto" e que Maria do Carmo seria "pobrezinha, mas inocente". Alinhado às concepções do Naturalismo, o trecho identifica nas personagens um(a):
A resposta é A. O narrador naturalista associa o caráter moral ao estrato socioeconômico: as "mulheres modernas" (ricas) tendem ao adultério; as pobres são "ingênuas" e "inocentes". Isso é o determinismo naturalista: o meio social (pobreza) condicionaria a moral da personagem. É uma compleição moral condicionada ao poder aquisitivo — o caráter determinado não pela vontade individual, mas pela classe social. Trata-se de uma visão preconceituosa típica do Naturalismo de tese.
Questão 07FGV
O Ateneu costuma ser classificado como "romance de formação". No entanto, a reflexão inicial do narrador adulto — "Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas… Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas" — indica que a obra se configurará como um romance de formação:
A resposta é A. O romance de formação clássico (Bildungsroman) termina com o protagonista amadurecido e integrado harmoniosamente à sociedade. Mas a reflexão de Sérgio adulto indica o contrário: a "saudade dos felizes tempos" é apenas "eufemismo" — a realidade de hoje é tão difícil quanto a de antes. Não houve aprendizado transformador que integrasse o protagonista; ao contrário, a experiência do Ateneu foi desformadora. Por isso é um romance de formação "negativo": o percurso formativo não gerou superação, mas pessimismo e desencanto.
Questão 08UNICAMP
Com base no excerto do capítulo VIII de O Ateneu — "Conhecera-o interessante… conhecera-o insípido e banal como os mistérios resolvidos… conhecia-o agora intolerável como um cárcere" — e no subtítulo "crônica de saudades", é correto afirmar que a obra é:
A resposta é C. O trecho mostra uma progressão de perspectivas de Sérgio sobre o Ateneu: de interessante a banal a intolerável — uma narrativa memorialista que evolui criticamente. O subtítulo "crônica de saudades" parece contraditório com a crítica do narrador, mas é irônico: as "saudades" são hipócritas (como Sérgio adulto admite). A obra é uma narrativa memorialista em 1ª pessoa que expõe o sistema educacional da época, critica Aristarco como tirano-comerciante, e denuncia a hipocrisia da burguesia imperial — não há elogio à pedagogia (B errada) nem é saudosismo puro (D parcial).
Questão 09UNICAMP — Dissertativa
Identifique o principal recurso estilístico da prosa de Raul Pompeia no trecho abaixo e explique como ele cria uma atmosfera de destruição.
"Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria, aparelhos de cosmografia partidos, enormes cartas murais em tiras, queimadas, enxovalhadas, vísceras dispersas das lições de anatomia, gravuras quebradas da história santa em quadros, cronologias da história pátria, ilustrações zoológicas, preceitos morais pelo ladrilho, como ensinamentos perdidos, esferas terrestres contundidas, esferas celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos negros da vida, da história, da crença tradicional…"
✦ Gabarito comentado
O principal recurso estilístico é a enumeração/acumulação caótica de substantivos e adjetivos. Raul Pompeia lista sem parar objetos destruídos: figuras torradas, aparelhos partidos, cartas queimadas, vísceras dispersas, gravuras quebradas, esferas contundidas e rachadas — criando um efeito de caos e desolação total. Cada item da lista é qualificado com um adjetivo que indica destruição ("torradas", "partidos", "queimadas", "quebradas"). A acumulação não deixa respiro — o leitor é soterrado pela quantidade de destroços, sentindo visualmente e fisicamente a destruição total do Ateneu. Além disso, o trecho funciona como metáfora: os objetos destruídos (geometria, cosmografia, história, preceitos morais) representam todo o sistema de conhecimento e valores que o Ateneu pretendeu ensinar — e que o incêndio, simbolicamente, extingue.
Questão 10UEL — Dissertativa
Com base no trecho de Aristarco em O Ateneu e no comentário crítico de Antônio Candido, explique a correlação entre Sérgio adolescente e Sérgio adulto no romance.
"Aludi várias vezes ao revestimento exterior de divindade com que se apresentava Aristarco… Assim é que um simples olhar do diretor imobilizava o colégio fulminantemente, como se levasse no brilho ameaças de todo um despotismo cruento."
Candido: "A memória evocadora sofre contínuas interferências subconscientes, de forma a substituir a noção de tempo objetivo pela duração interior… Domina nela a presença de Sérgio adolescente sob a vigilância esclarecedora de Sérgio adulto."
✦ Gabarito comentado
A narrativa de O Ateneu opera em duas temporalidades simultâneas: a do Sérgio criança, que viveu as experiências no internato sem entendê-las completamente, e a do Sérgio adulto, que as rememora com consciência crítica formada. Segundo Candido, essa duplicidade é essencial: o adulto "vigia" e interpreta o adolescente de dentro da narrativa. Por isso, ao descrever Aristarco, o narrador já usa vocabulário interpretativo de adulto — "despotismo cruento", "misteriosa púrpura", "revestimento exterior de divindade" — e não o olhar ingênuo de uma criança. O Sérgio criança sofria o impacto de Aristarco; o adulto desmonta o mecanismo de poder: mostra que era teatro, uma performance de autoridade para intimidar. Essa correlação cria uma tensão produtiva: o leitor tem acesso simultaneamente à experiência vivida (criança) e à análise crítica (adulto), o que aprofunda tanto a crítica ao sistema educacional quanto o retrato psicológico do protagonista.