A anatomia da sociedade burguesa — Machado de Assis e Eça de Queirós dissecam o adultério, a hipocrisia e as falsas morais do século XIX.
✦ Contexto Histórico
O Realismo surge na segunda metade do século XIX como reação direta ao idealismo romântico. O contexto intelectual é marcado pelo positivismo de Comte, o evolucionismo de Darwin, o determinismo de Taine e o socialismo de Marx e Engels. O progresso da ciência e a industrialização criaram uma nova visão de mundo: o homem como produto de seu meio e de sua herança biológica.
O marco literário do movimento é Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, que gerou escândalo ao retratar com crueza os devaneios românticos e o adultério de uma mulher insatisfeita. Na literatura, o romance passa de entretenimento a instrumento de crítica social.
✦ Conceitos-chave
🔬ObjetividadeNarrador onisciente, linguagem precisa e descritiva, sem exaltações sentimentais — "a fotografia do mundo moderno".
💍Adultério como críticaO triângulo amoroso expõe a falsa moral burguesa: a família como instituição de fachada, o casamento como conveniência.
🧠PsicologismoAnálise profunda do interior das personagens — motivações, contradições, mecanismos de autoenganação.
🏙️Ambientação urbanaRio de Janeiro e Lisboa como cenários principais — cidade, burguesia, aristocracia e suas relações de poder.
😈AnticlericalismoEm Eça: crítica à Igreja, ao celibato clerical e à influência religiosa na sociedade — "O crime do padre Amaro".
🪞Ironia e SarcasmoEspecialmente em Machado de Assis: o narrador não confiável, a metalinguagem, o pessimismo filosófico velado.
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Brasil
Machado de Assis
Narrador não confiável, em 1ª pessoa
Ironia sutil, pessimismo filosófico
Adultério sugerido, nunca comprovado
Crítica à burguesia carioca
Duas fases: romântica e realista
Obras principais Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) — narrador defunto, "pena da galhofa e tinta da melancolia" Quincas Borba (1891) — Humanitismo: "ao vencedor, as batatas" Dom Casmurro (1900) — Capitu traiu? Narrador ciumento, "olhos de ressaca" Esaú e Jacó (1904), Memorial de Aires (1908)
Contos importantes
"A cartomante", "D. Paula", "Um homem célebre"
Portugal
Eça de Queirós
Narrador onisciente, 3ª pessoa
Ironia explícita, crítica social direta
Adultério confirmado, sem ambiguidade
Crítica à burguesia lisboeta e ao clero
Fase realista e fase pós-realista
Fase realista O crime do padre Amaro (1875) — padre x Amélia, crítica ao clero O primo Basílio (1878) — Luísa x Basílio, crítica à burguesia lisboeta Os Maias — alta burguesia, vícios, incesto
Fase pós-realista A ilustre casa de Ramires — ironia ao nacionalismo português A cidade e as serras — campo vs. cidade industrializada
✦ Os Triângulos Amorosos do Realismo
O adultério realista segue um padrão: mulher casada + marido + amante próximo da família. Essa proximidade torna a traição ainda mais escandalosa — e mais reveladora da hipocrisia social.
Dom Casmurro — Machado de Assis
Capituesposa
⇄
Escobarmelhor amigo
Bentinho (marido ciumento)
Memórias póstumas — Machado de Assis
Virgíliaesposa
⇄
Brás Cubasex-noivo
Lobo Neves (marido indiferente)
O primo Basílio — Eça de Queirós
Luísaesposa
⇄
Basílioprimo/parente
Jorge (marido ausente)
✦ O Realismo em Portugal — Contexto
O Realismo português tem origem no conflito entre estudantes de Coimbra e o romantismo de Castilho. Em 1865, a Questão Coimbrã opôs Antero de Quental ao poeta António Feliciano de Castilho. Antero respondeu com o folhetim Bom senso e bom gosto, fundando a estética realista em Portugal.
Em 1871, as Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense consolidaram o movimento. Eça de Queirós proferiu a conferência "A literatura nova — o Realismo como nova expressão da arte", atacando o Romantismo. A Geração de 1870 (ou "Vencidos da Vida") instalou definitivamente o Realismo em Portugal.
O marco oficial é O crime do padre Amaro (1875), de Eça de Queirós — primeiro romance realista português.
⚠ O que mais cai no ENEM e Vestibular
Dom Casmurro: o narrador não confiável é fundamental — tudo é visto pelos olhos ciumentos de Bentinho; Capitu pode ser inocente
Memórias póstumas de Brás Cubas: o "defunto autor" (não autor defunto); inovações formais; "pena da galhofa e tinta da melancolia"
Humanitismo: sátira às filosofias do século XIX; "ao vencedor, as batatas" = crítica ao darwinismo social
Eça e a crítica ao clero: anticlericalismo em O crime do padre Amaro; a ironia sobre a devoção religiosa hipócrita
O primo Basílio: o espaço físico do "Paraíso" como crítica — o ambiente sujo revela a realidade por trás das fantasias românticas de Luísa
Questão Coimbrã vs. Conferências do Cassino: datas e personagens — Antero de Quental, Castilho, Eça de Queirós
Machado x Eça: questões de comparação são recorrentes — foco nas diferenças de técnica narrativa e tratamento do adultério
✦ Questões de Vestibular ✦
Questão 01UNIFESP
No trecho de O primo Basílio, Juliana diz a Luísa: "Está ali o sujeito do costume". A reação de escândalo de Luísa decorre:
A alternativa E é a correta. A criada Juliana diz "o sujeito do costume" — uma expressão irônica que sugere que ela sabe das visitas frequentes e suspeitas de Basílio. O escândalo de Luísa vem exatamente dessa ambiguidade: a criada usa uma fórmula de linguagem que revela, de forma irônica e insinuante, a natureza das visitas. Luísa se escandaliza porque Juliana deixou transparente que entendeu mais do que deveria.
Questão 02UNIFESP
No antepenúltimo parágrafo do trecho de O primo Basílio, nas reflexões de Juliana (a criada), está sugerido o tema gerador do romance de Eça de Queirós:
A resposta é C. Juliana pensa: "E só vem então quando o marido se vai… e é roupa-branca e mais roupa-branca, e suspiros e olheiras! Tudo fica na família!" — ela percebe o triângulo amoroso formado por Luísa (esposa), Jorge (marido ausente) e Basílio (o primo amante). Essa percepção da criada antecipa e condensa o tema central do romance: o adultério dentro da burguesia lisboeta.
Questão 03UERJ — Dissertativa
No fragmento de O crime do padre Amaro (Cap. XVIII), após o beijo de Amaro e Amélia na sacristia, os dois têm reações opostas. Explique os dois temas em conflito e indique uma expressão do texto que sintetize esse conflito.
"Oh filhinha, és mais linda que Nossa Senhora!" — Amélia: "Oh Amaro, que horror, que pecado!… / Tira-mo, tira-mo! gritava, como se a seda a queimasse. / Então Amaro fez-se muito sério. Realmente não se devia brincar com coisas sagradas…"
✦ Gabarito comentado
Os dois temas em conflito são: (1) o desejo/erotismo e (2) a religiosidade/sacralidade. Amaro, padre e homem de fé, cede ao desejo carnal pela beata Amélia — justamente no espaço sagrado da sacristia e com ela vestindo o manto de Nossa Senhora. A ironia de Eça é máxima: o desejo profana o sagrado. Amélia reage com culpa religiosa ("que horror, que pecado!"), mas logo Amaro retoma o papel de padre hipócrita ("Realmente não se devia brincar com coisas sagradas"). A expressão que sintetiza o conflito é a reação final de Amaro — ele usa o discurso sagrado para encobrir o ato profano, exemplificando a crítica de Eça à hipocrisia clerical.
Questão 04ENEM
No trecho de Memórias póstumas de Brás Cubas intitulado "Notas" — onde o narrador lista objetos e ações de um enterro em sequência —, o recurso linguístico que permite ao narrador considerar o capítulo como um "inventário" é a:
A resposta é A. Um inventário é essencialmente uma listagem de itens. O narrador Brás Cubas usa a enumeração sistemática de objetos e ações do velório ("soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto… caixão, essa, tocheiros, convites…") para criar um efeito de catálogo fúnebre. É exatamente essa estrutura enumerativa que faz o narrador — com ironia típica de Machado — chamar o capítulo de "inventário".
Questão 05ENEM
O conto "Um homem célebre", de Machado de Assis, narra o sofrimento do compositor Pestana, que compõe polcas de sucesso popular mas deseja criar música clássica europeia. Com base nos textos sobre o conto, o conflito da personagem em compor obras do gênero popular é representativo da:
A resposta é D. O conto alegoriza a tensão estrutural da cultura brasileira: a música popular (polca, maxixe — associada à mestiçagem e à rua) versus a música erudita europeia (Beethoven, Mozart — associada ao prestígio e à "civilização"). Pestana é incapaz de criar o que considera "elevado" e só consegue produzir o que é vitalmente brasileiro. Machado usa isso para discutir a tensão entre identidade nacional e o complexo de inferioridade cultural frente à Europa.
Questão 06ENEM
No conto de Machado de Assis, dois homens conversam sobre uma mulher que passa vestida de preto: "Deve ter quarenta e seis anos. / — Ah! conservada. [...] Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e chegará lá. Morava na Rua do Sacramento."
No diálogo, a condição da mulher no século XIX é representada pelo fato de que ela:
A resposta é D. Os dois homens identificam e julgam a mulher a partir de critérios masculinos: sua aparência física ("conservada"), sua profissão (inferida pela exclusão), sua morada ("Rua do Sacramento" — área de prostituição). A identidade da mulher é construída pelo olhar e pelas categorias do homem — ela não tem voz, não existe no texto exceto como objeto de análise masculina. Isso é a representação do patriarcalismo do século XIX criticada por Machado.
Questão 07UNIP-SP
Sobre o romance Dom Casmurro de Machado de Assis, assinale a alternativa incorreta:
A alternativa D está incorreta. Dom Casmurro NÃO segue ordem cronológica linear. O romance começa com Bentinho já velho (Dom Casmurro), em trem de subúrbio, sendo incomodado por um jovem poeta — e então ele decide escrever suas memórias. A narrativa é retrospectiva, com analepses (flashbacks) à adolescência e ao seminário, intercaladas com reflexões do narrador-idoso. A estrutura é fragmentária e não linear, com capítulos curtos e digressivos — traço modernista antecipado por Machado.
Questão 08FAMERP-SP
No trecho de Memórias póstumas de Brás Cubas sobre as "botas apertadas" — em que Brás Cubas filosofa que o prazer de tirar as botas apertadas prova que a felicidade é produto do sofrimento —, o procedimento típico de Machado de Assis presente é:
A resposta é E. Brás Cubas interrompe a narrativa (que deveria tratar do encontro com o pai) para divagar sobre o episódio banal das botas apertadas — e a partir daí constrói uma filosofia pessimista sobre a felicidade humana. Isso é digressão: o narrador se desvia do assunto principal para reflexões aparentemente aleatórias que, no entanto, revelam o caráter irônico e filosófico do defunto autor. É uma das marcas mais características do estilo machadiano.
Questão 09UERJ
Nos textos do Capítulo IV e Capítulo VI de O crime do padre Amaro, qual é o grupo social alvo da crítica de Eça de Queirós no Texto 1 (as amigas que visitam o quarto do padre e se extasiam com o crucifixo e a fotografia do Papa)?
A resposta é A. No Texto 1, Eça satiriza as mulheres da pequena burguesia devota: elas vão ver o quarto do padre "para se porem ao facto", tratam o crucifixo como curiosidade, se extasiam com a foto do Papa como se fosse uma celebridade — misturando devoção religiosa com fofoca e curiosidade mundana. O recurso expressivo usado é a ironia: "foi-lhes mostrar o quarto do padre, o baú de lata… Todas se extasiaram. — É o mais que se pode!" — o narrador usa o entusiasmo exagerado das mulheres para revelar o quão vazia é sua religiosidade.
Questão 10UFPE — Comparação
Compare as técnicas narrativas de Machado de Assis e Eça de Queirós na construção de suas personagens femininas. Use como base a descrição de Luísa em O primo Basílio e de Capitu em Dom Casmurro.
Eça — Luísa: "o cabelo louro um pouco desmanchado… a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras… dois anéis de rubis miudinhos davam cintilações escarlates."
Machado — Capitu: "olhos claros e grandes, nariz reto e comprido... As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor… Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos."
✦ Gabarito comentado
As duas descrições revelam técnicas e visões distintas. Eça de Queirós usa um narrador onisciente de 3ª pessoa que descreve Luísa de fora, com ênfase na materialidade burguesa — roupão de fazenda, bordados, anéis de rubis. A descrição é plástica e exterior, revelando o conforto material e a ociosidade burguesa de Luísa. O narrador eça-iano constrói uma crítica social pela descrição dos objetos. Machado de Assis usa Bentinho como narrador-personagem de 1ª pessoa, e a descrição de Capitu é filtrada pelo olhar apaixonado do rapaz — "olhos claros e grandes" (que mais tarde serão "olhos de ressaca"). Capitu é pobre (sapatos remendados), mas tem cuidado consigo mesma (mãos curadas com amor). A diferença de classe social entre as duas é evidente e funcional: Luísa é burguesa entediada que busca aventura; Capitu é jovem pobre que usa sua inteligência para ascender socialmente. Machado não confirma nem nega o adultério; Eça o confirma.