A construção da identidade nacional através da poesia, do romance e do índio como herói — da Independência ao fim do Império.
✦ Contexto Histórico
O Romantismo brasileiro surge no contexto de construção da nação independente. A chegada da Corte portuguesa (1808) urbanizou o Rio de Janeiro e criou condições culturais para o movimento. A Missão Artística Francesa (1816), liderada por Le Breton e com Jean-Baptiste Debret, implantou as bases da Academia de Belas Artes.
O marco oficial do Romantismo no Brasil é a publicação da Revista Nitheroy (1836) por Gonçalves de Magalhães, em Paris. O movimento dura até a década de 1870, quando o Realismo começa a ganhar força.
O principal objetivo dos românticos brasileiros era criar uma identidade nacional para o país recém-independente, valorizando a natureza, o passado histórico e o indígena como herói.
✦ Conceitos-chave
🌿IndianismoValorização do indígena como herói nacional, puro e nobre — o "bom selvagem" de Rousseau adaptado ao Brasil.
💀Mal do SéculoAngústia, pessimismo, culto da morte e do sonho presentes na 2ª geração — influência byroniana.
🦅CondoreirismoPoesia social e grandiloquente da 3ª geração — condor como símbolo de liberdade, abolicionismo e crítica ao Império.
🏙️Romance UrbanoRetratos da sociedade fluminense do século XIX — amor, dinheiro, casamento e crítica social velada.
🇧🇷NacionalismoExaltação da natureza pátria, do passado histórico e da cultura brasileira como forma de construir uma identidade.
💔SubjetivismoPrimazia das emoções individuais, do "eu" lírico intenso, do amor idealizado e da melancolia profunda.
⚡ As Três Gerações Poéticas do Romantismo Brasileiro
1ª
Indianismo e Nacionalismo
1836 – c. 1850
Busca de identidade nacional: exaltação do índio como herói, da natureza tropical e do passado histórico. Forte religiosidade e sentimentalismo.
Gonçalves de MagalhãesGonçalves DiasAraújo Porto-Alegre
Canção do Exílio— o poema mais citado da literatura brasileira; paradigma do saudosismo nacional
Leito de Folhas Verdes— fusão de indianismo, amor e natureza exuberante
I-Juca-Pirama— poema épico-lírico sobre o guerreiro tupi que chora diante da morte
2ª
Ultrarromantismo — Mal do Século
c. 1850 – 1860
Angústia existencial, culto da morte, erotismo velado, humor e ironia. Influência de Lord Byron e Shakespeare. Poetas que morreram jovens.
Álvares de AzevedoCasimiro de AbreuJunqueira Freire
Lira dos Vinte Anos— duas partes: Ariel (lírico-sentimental) e Caliban (irônico-humorístico)
Lembrança de morrer— "Foi poeta, sonhou e amou na vida" — síntese do mal do século
Namoro a cavalo— ironia e humor autocrítico — face Caliban de Álvares de Azevedo
3ª
Condoreirismo — Poesia Social
c. 1860 – 1870
Poesia engajada, grandiloquente e oratória. Luta contra a escravidão e o Império. O condor (ave dos Andes) como símbolo de liberdade e voo alto.
Castro AlvesTobias BarretoSousândrade
Vozes d'África— lamento da África diante de Deus pela escravidão dos seus filhos
O Navio Negreiro— o poema abolicionista mais famoso da literatura brasileira
Tragédia no Lar— mãe escravizada tem o filho vendido pelo fazendeiro
✦ O Romance Romântico Brasileiro
O romance romântico brasileiro tem como principal cenário o Rio de Janeiro do século XIX. Três autores se destacam:
📚Joaquim Manuel de MacedoA Moreninha (1844) — primeiro romance brasileiro de sucesso. Amor juvenil entre estudantes de medicina.
✍️José de AlencarIracema, Senhora, Lucíola — indianismo e crítica à sociedade burguesa. Aurélia Camargo "compra" o marido em Senhora.
🎭Manuel Antônio de AlmeidaMemórias de um Sargento de Milícias — romance picaresco, fora dos padrões românticos, com humor e crítica social.
⚠ O que mais cai no ENEM e Vestibular
Gerações poéticas: identificar qual autor pertence a qual geração e suas características específicas
Castro Alves vs. Gonçalves Dias: não confundir — Dias é 1ª geração (indianismo), Castro Alves é 3ª (condoreirismo/abolicionismo)
Lira dos Vinte Anos: as duas faces — Ariel (lírico) e Caliban (irônico); saber diferenciar nos excertos
Iracema de Alencar: anagrama de "América"; mito fundador do povo brasileiro mestiço
Memórias de um Sargento de Milícias: texto que foge ao padrão romântico — picaresco, sem idealização
I-Juca-Pirama: guerreiro que chora = desonra; pai o amaldiçoa; tema da honra indígena
Intertextualidade: questões que pedem comparação do texto romântico com obras posteriores (ex.: Caetano/Castro Alves)
✦ Questões de Vestibular ✦
Questão 01PUC-GO
Com base no texto: "Na verdade, o Romantismo teve aqui [no Brasil] uma significação bastante diversa da que teve na Europa. Enquanto visão de mundo, ele viverá um processo de ajuste e adaptação."
Sobre as proposições:
I. Na poesia da Primeira Geração, destacam-se os indianistas, a exemplo de Gonçalves Dias.
II. Um dos traços da Segunda Geração, a denúncia social, encontra em Castro Alves um de seus nomes mais representativos.
III. À Segunda Geração, vinculam-se características como o "mal do século", o culto da morte e o pessimismo.
Assinale a única alternativa correta:
A proposição I é correta: Gonçalves Dias é o grande representante do indianismo (1ª geração). A proposição II está errada: a denúncia social pertence à 3ª geração (condoreirismo), não à 2ª. Castro Alves é o nome central da 3ª geração. A proposição III é correta: o mal do século, o culto da morte e o pessimismo são características da 2ª geração (ultrarromantismo), com Álvares de Azevedo como principal representante.
Questão 02UFRGS
Assinale a alternativa correta sobre autores do Romantismo brasileiro:
A alternativa C é a correta. Álvares de Azevedo, especialmente em Noite na Taverna, abandona o nacionalismo indianista e mergulha no ultrarromantismo: angústia existencial, erotismo, humor sarcástico — face Caliban da Lira dos Vinte Anos. As demais estão erradas: Gonçalves Dias era indianista/lírico, não abolicionista; Manuel Antônio de Almeida é picaresco e atípico no Romantismo; Castro Alves pertence ao condoreirismo (3ª geração), não ao indianismo.
Questão 03UEM — Adaptada
Com base no poema "O Canto do Guerreiro" de Gonçalves Dias, assinale V (verdadeiro) ou F (falso) para cada proposição:
"Valente na guerra / Quem há, como eu sou? / Quem vibra o tacape / Com mais valentia? / Quem golpes daria / Fatais, como eu dou?"
I. O poema pertence à 1ª fase do Romantismo, explorando marcas indianistas e nacionalistas com linguagem simples. [V/F]
II. O autor usa anáforas ("Quem há"), hipérboles ("Mil arcos se encurvam") e versos melódicos em redondilhas menores. [V/F]
III. O índio representado remete à filosofia do "bom selvagem" de Rousseau: ingênuo, corajoso e heroicizado. [V/F]
A sequência correta é:
Todas as três proposições são verdadeiras (V, V, V). O poema de Gonçalves Dias é caracteristicamente da 1ª geração romântica, com indianismo e nacionalismo. O autor utiliza recursos poéticos como anáforas e hipérboles (verso "Mil arcos se encurvam"). E a representação do índio segue a filosofia rousseauniana do bom selvagem — corajoso, nobre, valente e ligado à natureza.
Questão 04PUCCAMP-SP
No prefácio de Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo escreve: "Depois a doença da vida […] descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira que morde."
Nessa passagem, o poeta romântico está considerando:
A resposta é D. O prefácio descreve exatamente a estrutura dual da Lira dos Vinte Anos: a primeira parte (Ariel) tem o lirismo puro, o idealismo e o amor romântico; a segunda parte (Caliban) tem a sátira, a ironia e o humor que "morde". Essa dualidade é a essência da poesia de Álvares de Azevedo — ele mesmo tematiza essa transição no prefácio.
Questão 05ENEM
"A mitologia comparada surge no século XVIII. Essa tendência influenciou o escritor cearense José de Alencar, que, inspirado pela epopeia homérica na Ilíada, propõe em Iracema uma espécie de mito fundador do povo brasileiro. Assim como a Ilíada vincula a constituição do povo helênico à Guerra de Troia, Iracema vincula a formação do povo brasileiro aos conflitos entre índios e colonizadores, atravessados pelo amor proibido entre Iracema e o colonizador português Martim Soares Moreno."
A comparação estabelecida entre Ilíada e Iracema demonstra que essas obras:
A resposta é C. O texto deixa clara a função mítico-histórica das duas obras: tanto a Ilíada quanto Iracema constroem a identidade de seus respectivos povos (grego e brasileiro) associando eventos históricos — a Guerra de Troia e a colonização — a narrativas míticas com heróis e amores trágicos. Essa associação entre história e mito para construir identidade coletiva é o ponto de convergência.
Questão 06ENEM
"Talvez julguem que isto são voos de imaginação: é possível. Como não dar largas à imaginação, quando a realidade vai tomando proporções quase fantásticas, quando a civilização faz prodígios, quando no nosso próprio país a inteligência, o talento, as artes, o comércio, as grandes ideias, tudo pulula, tudo cresce e se desenvolve? Na ordem dos melhoramentos materiais, sobretudo, cada dia fazemos um passo, e em cada passo realizamos uma coisa útil para o engrandecimento do país." ALENCAR, J. Ao correr da pena. 1854.
Na crônica de José de Alencar, a temática nacionalista constrói-se pelo elogio ao(à):
A resposta é B. O trecho de Alencar exalta o desenvolvimento e crescimento do país — "cada dia fazemos um passo", "tudo cresce e se desenvolve". É o elogio ao progresso e ao futuro promissor da nação, típico do nacionalismo romântico otimista. Não se trata de passado nem de imaginação pela imaginação: é um elogio ao avanço material e cultural em curso.
Questão 07ENEM
"Quem não se recorda de Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro? […] Guardando com a viúva as deferências devidas à idade, a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse. Constava também que Aurélia tinha um tutor; mas essa entidade era desconhecida, a julgar pelo caráter da pupila, não devia exercer maior influência em sua vontade, do que a velha parenta." ALENCAR, J. Senhora, 1875.
A presença de D. Firmina Mascarenhas como "parenta" de Aurélia Camargo assimila práticas sociais do contexto do Romantismo, pois:
A resposta é D. D. Firmina existe para satisfazer os "escrúpulos da sociedade brasileira" — uma mulher solteira e rica precisava de uma acompanhante para ser socialmente aceita. Isso evidencia como a sociedade cerceava a autonomia feminina mesmo quando a mulher tinha independência financeira (Aurélia é rica). O narrador expõe essa contradição: Aurélia manda em tudo, mas precisa da aparência de tutela social.
Questão 08FAMEMA-SP
"No tempo em que se passavam os fatos que vamos narrando nada mais havia comum do que ter cada casa um, dois e às vezes mais agregados. […] O agregado, refinado vadio, era uma verdadeira parasita que se prendia à árvore familiar, que lhe participava da seiva sem ajudá-la a dar frutos." ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um Sargento de Milícias.
No texto, a figura do agregado é descrita:
A resposta é B. O texto de Manuel Antônio de Almeida apresenta dois tipos de agregado: o útil, que presta serviços à família e dela usufrui dos favores; e o parasita ("refinado vadio"), que explora a família sem contribuir. O narrador apresenta os dois lados dessa relação social característica do Rio de Janeiro oitocentista, sem julgamento moralista — o que é típico do estilo picaresco e atípico do romance do autor.
Questão 09UPE
Sobre as artes plásticas do Romantismo, considere as obras: (1) Delacroix — Grécia sobre as ruínas de Missolonghi; (2) Victor Meirelles — A Batalha dos Guararapes; (3) Géricault — A Balsa da Medusa; (4) José Maria de Medeiros — Iracema.
Sobre a imagem 4 (Iracema), está correto afirmar que:
A resposta é C. A pintura Iracema (1881) de José Maria de Medeiros retrata a protagonista do romance homônimo de José de Alencar (1865), não "O Uraguai" (que é um poema épico de Basílio da Gama sobre os índios Guarani). Iracema é a índia tabajara que se apaixona pelo colonizador português Martim, símbolo do mito fundador do povo brasileiro mestiço. A obra plástica dialoga diretamente com o romance de Alencar.
Questão 10UPE — Intertextualidade
Compare os dois textos abaixo e explique como a canção de Caetano Veloso dialoga com o poema de Castro Alves, identificando as transformações realizadas e o que cada texto diz sobre o papel da praça pública.
Castro Alves — "O povo ao poder" (c. 1865):
"A praça! A praça é do povo / Como o céu é do condor / É o antro onde a liberdade / Cria águias em seu calor."
Caetano Veloso — "Um frevo novo" (c. 1969):
"A praça Castro Alves é do povo / Como o céu é do avião / Um frevo novo, um frevo / Todo mundo na praça / Manda a gente sem graça pro salão"
✦ Gabarito comentado
Caetano Veloso realiza uma paródia intertextual do poema de Castro Alves. Ambos os textos afirmam que "a praça é do povo", mas transformam o símbolo de liberdade: Castro Alves usa o condor (ave dos Andes, majestosa, símbolo da poesia condoreira e do espírito libertário, voo alto) como metáfora da propriedade popular; Caetano substitui o condor pelo avião, modernizando a imagem mas mantendo a estrutura do verso. Na canção, a praça não é mais espaço de luta política e abolicionismo, mas de festa popular — o frevo e o carnaval. Caetano transforma o espaço de protesto em espaço de celebração cultural, numa leitura tropicalista da tradição romântica. A intertextualidade evidencia: (1) a permanência do espaço público como símbolo democrático; (2) a mudança de contexto histórico — do abolicionismo ao Tropicalismo; (3) a paródia como ressignificação e não mera imitação.