Racismo, exclusão social e crítica literária no Pré-Modernismo brasileiro — Lima Barreto e a denúncia da desigualdade.
Resumo
O Pré-Modernismo (1902–1922) é um período de transição entre o Simbolismo e o Modernismo. Os autores pré-modernistas retratam a realidade social brasileira do início do século XX, denunciando a exclusão, o racismo e a desigualdade que marcaram a Primeira República.
Diferente do Realismo/Naturalismo, que analisava a sociedade com distância científica, o Pré-Modernismo tem um tom de denúncia engajada. Os autores escrevem sobre os marginalizados — os sertanejos, os negros, os pobres urbanos — com empatia e indignação.
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Crítica Social
Denúncia das desigualdades, do racismo e da exclusão social que persistiram após a Abolição (1888) e a República (1889).
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Lima Barreto
Principal nome do Pré-Modernismo urbano. Escreveu sobre o Rio de Janeiro pobre, negro e marginalizado. Sofreu preconceito racial em vida.
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Euclides da Cunha
"Os Sertões" (1902) — retrata a Guerra de Canudos e o sertanejo. Mistura jornalismo, ciência e literatura. Marco do Pré-Modernismo.
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Abolição sem Integração
A escravidão foi abolida em 1888, mas sem políticas de integração. Ex-escravizados não receberam terra, educação ou reparação — base da desigualdade atual.
⚡ O que mais cai no vestibular
Lima Barreto: vida e obra — negro, pobre, marginalizado; escreveu sobre o Rio de Janeiro real, não o da belle époque
"Recordações do Escrivão Isaías Caminha" (1909): autobiográfico, denuncia o racismo nas redações jornalísticas
"Triste Fim de Policarpo Quaresma" (1915): crítica ao nacionalismo ingênuo e ao militarismo
Pré-Modernismo x Modernismo: Pré-Modernismo denuncia a realidade; Modernismo rompe com as formas tradicionais
Contexto histórico: Primeira República (1889–1930), coronelismo, café com leite, exclusão dos negros e pobres
Abolição sem reparação: causa histórica da desigualdade racial que persiste até hoje
Lima Barreto — O Escritor Marginalizado
Afonso Henriques de Lima Barreto (1881–1922) nasceu no Rio de Janeiro, filho de um tipógrafo negro e uma professora. Viveu na pobreza, sofreu racismo e alcoolismo, e morreu aos 41 anos sem reconhecimento literário. Seu reconhecimento veio postumamente.
Sua obra é marcada pela crítica social direta, pelo uso de linguagem simples (contrariando as normas gramaticais da época) e pela representação de personagens negros, pobres e marginalizados — ausentes na literatura da belle époque.
Lima Barreto
1881 – 1922 • Rio de Janeiro
Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909)
Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915)
Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919)
Clara dos Anjos (1948, póstumo)
Crônicas e contos sobre o subúrbio carioca
Euclides da Cunha
1866 – 1909 • São Paulo
Os Sertões (1902) — obra-prima
Correspondente de guerra em Canudos (1897)
Engenheiro militar e jornalista
Mistura ciência, jornalismo e literatura
Visão ambígua do sertanejo: admiração e determinismo
Mapa Mental — Preconceito na Literatura
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Exercícios de Vestibular
ENEM 2022
Lima Barreto é considerado um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX, apesar de ter sido marginalizado em vida. Qual é a principal razão para essa marginalização?
✅ Gabarito: B. Lima Barreto sofreu preconceito racial e social em vida: era negro, pobre, escrevia em linguagem simples (contrariando as normas gramaticais da época) e retratava os marginalizados — ausentes na literatura da belle époque, que preferia temas europeus e personagens da elite. Seu reconhecimento veio postumamente.
FUVEST 2021
"Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se veem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua..."
No trecho de "Triste Fim de Policarpo Quaresma", a expressão "proprietários da língua" refere-se a:
✅ Gabarito: B. "Proprietários da língua" = portugueses e gramáticos que impõem as normas do português europeu. Quaresma critica a imposição de um padrão linguístico estrangeiro ao Brasil — o português falado no Brasil é diferente do europeu, e os brasileiros são constantemente "corrigidos" por não seguirem as normas dos "proprietários". É uma crítica à colonização linguística.
UNICAMP 2022
A Abolição da Escravatura (1888) não foi acompanhada de políticas de integração dos ex-escravizados. Qual é a consequência histórica mais direta desse fato, segundo a perspectiva dos autores pré-modernistas?
✅ Gabarito: B. Sem terra, educação ou reparação, os ex-escravizados foram marginalizados: foram para as periferias das cidades, ocuparam os trabalhos mais precários e continuaram sendo discriminados. Lima Barreto retrata essa realidade em sua obra — personagens negros e pobres que vivem no subúrbio carioca, excluídos da belle époque da elite.
UNESP 2021
Em "Recordações do Escrivão Isaías Caminha" (1909), Lima Barreto narra a história de um jovem negro que vai ao Rio de Janeiro tentar a vida e se depara com o racismo. Qual é o principal recurso narrativo usado pelo autor?
✅ Gabarito: B. A narração em primeira pessoa autobiográfica cria identificação e empatia: o leitor vive a experiência do preconceito junto com o narrador. Lima Barreto usa esse recurso para denunciar o racismo de forma visceral — não como análise distante, mas como experiência vivida. O romance tem forte caráter autobiográfico: Isaías Caminha é um alter ego do autor.
ENEM 2021
Em "Os Sertões" (1902), Euclides da Cunha descreve o sertanejo como "antes de tudo, um forte". Essa afirmação é paradoxal porque:
✅ Gabarito: B. Euclides da Cunha é contraditório: admira a resistência do sertanejo ("antes de tudo, um forte") mas usa o determinismo científico (influência do positivismo e do darwinismo social) para apresentá-lo como produto do meio e da raça — "inferior" na escala evolutiva. Essa contradição reflete o pensamento da época: admiração pela resistência, mas preconceito racial disfarçado de ciência.
FAMERP 2022
O Pré-Modernismo se diferencia do Realismo/Naturalismo principalmente porque:
✅ Gabarito: B. Realismo/Naturalismo: análise científica e distante, influência do positivismo e do determinismo. Pré-Modernismo: denúncia engajada e empática — Lima Barreto se identifica com Isaías Caminha; Euclides da Cunha se indigna com o massacre de Canudos. A diferença é de postura: o Realista observa; o Pré-Modernista denuncia.
UFRJ 2022
Lima Barreto escrevia em linguagem simples, ignorando normas gramaticais. Qual é o significado político dessa escolha estilística?
✅ Gabarito: B. A linguagem simples de Lima Barreto é uma postura política: ao recusar o português erudito da elite, ele democratizava a literatura e se aproximava dos leitores que retratava. Era também uma crítica implícita aos "proprietários da língua" — os gramáticos e escritores que impunham o português europeu como único padrão legítimo.
UNICAMP 2023
A Guerra de Canudos (1896-1897) foi um conflito no sertão baiano entre o exército republicano e os seguidores de Antônio Conselheiro. Qual é a interpretação de Euclides da Cunha sobre esse conflito?
✅ Gabarito: B. Euclides da Cunha, que foi ao sertão como correspondente de guerra esperando relatar a vitória da civilização sobre o fanatismo, mudou de perspectiva ao ver o massacre. "Os Sertões" é uma denúncia: o "Brasil civilizado" (a República) destruiu o "Brasil sertanejo" (Canudos) — revelando que a modernização era violenta e excludente. A frase final é emblemática: "Canudos não se rendeu."
UNESP 2023
Em "Triste Fim de Policarpo Quaresma", o protagonista é um patriota ingênuo que acredita que o Brasil pode ser transformado pela valorização da cultura nacional. O "triste fim" do título refere-se a:
✅ Gabarito: B. Quaresma é executado pelo governo de Floriano Peixoto — o mesmo que ele serviu com patriotismo ingênuo. Lima Barreto usa o personagem para criticar o nacionalismo superficial e a violência da Primeira República: o patriota que acredita no Brasil é destruído pelo próprio Brasil. É uma crítica amarga ao militarismo e à política da época.
ENEM 2023
A expressão "belle époque" refere-se ao período de modernização do Rio de Janeiro no início do século XX. Lima Barreto critica esse período porque:
✅ Gabarito: B. A "belle époque" carioca (reforma Pereira Passos, 1903-1906) modernizou o centro do Rio de Janeiro ao estilo europeu, mas expulsou os pobres e negros para os subúrbios — a famosa "bota-abaixo". Lima Barreto retrata o subúrbio carioca como o espaço dos excluídos da modernização: negros, pobres, trabalhadores — os invisíveis da belle époque.
FUVEST 2023
Qual é a relação entre o Pré-Modernismo e o Modernismo de 1922?
✅ Gabarito: B. O Pré-Modernismo prepara o terreno para o Modernismo: denuncia a realidade social (Lima Barreto, Euclides da Cunha) que o Modernismo irá transformar formalmente (Semana de Arte Moderna, 1922). Ambos rompem com a literatura da belle époque, mas por caminhos diferentes: o Pré-Modernismo pela denúncia social; o Modernismo pela ruptura formal.
UNICAMP 2022
Em "Clara dos Anjos" (1948, póstumo), Lima Barreto retrata uma jovem negra do subúrbio carioca que é seduzida e abandonada por um rapaz branco da elite. O romance denuncia:
✅ Gabarito: B. Lima Barreto antecipa o conceito de interseccionalidade: Clara é vulnerável porque é negra (racismo), mulher (machismo) e pobre (classismo). A combinação dessas opressões a torna um alvo fácil. O romance denuncia como o sistema social brasileiro usa essas vulnerabilidades para explorar as mais frágeis — uma crítica que permanece atual.
ENEM — Dissertativa
Com base na obra de Lima Barreto, analise como o preconceito racial e social é retratado na literatura pré-modernista brasileira. Relacione com o contexto histórico da Primeira República e com a situação atual do Brasil.
Gabarito: Uma boa resposta deve: (1) Contextualizar o período — Primeira República, Abolição sem reparação, belle époque excludente; (2) Analisar a obra de Lima Barreto — personagens negros e pobres, linguagem simples como postura política, crítica ao racismo nas instituições; (3) Relacionar com o contexto histórico — a desigualdade racial atual tem raízes na Abolição sem reparação; (4) Atualizar a discussão — o preconceito retratado por Lima Barreto em 1909 ainda é uma realidade no Brasil de hoje, evidenciada por estatísticas de desigualdade racial.